Dia do Comerciante: vender mais não basta — por que lojistas chegam ao 2º semestre com dívidas, impostos e caixa apertado?

Especialistas alertam que a inadimplência das empresas bateu recorde e o pequeno negócio segue refém de juro alto, imposto atrasado e crédito caro

Comemorado em 16 de julho, o Dia do Comerciante chega em 2026 escancarando um contraste que se repete em lojas de bairro, bares, restaurantes e negócios de rua espalhados pelo país: o movimento aparece no balcão, mas o lucro nem sempre sobra no caixa. Entre dívidas bancárias, impostos atrasados e margem cada vez mais apertada, quem toca um pequeno negócio entra no segundo semestre tentando responder a uma pergunta simples, e difícil: vender mais adianta de que, se o dinheiro sai da loja tão rápido quanto entra?

A inadimplência bateu novo recorde

O retrato mais recente da Serasa Experian, divulgado no início de julho, não ajuda a aliviar essa pressão. O Brasil fechou maio de 2026 com mais de 9 milhões de CNPJs negativados, o maior número da série histórica, e um estoque de dívidas de R$ 229,9 bilhões, também recorde. Cada empresa inadimplente carrega, em média, 7,3 dívidas em aberto.

As micro e pequenas empresas seguem sendo as mais afetadas: são 8,5 milhões de CNPJs negativados, com R$ 198,8 bilhões em débitos e dívida média de cerca de R$ 23 mil por empresa. Um ano antes, em maio de 2025, o país tinha 7,7 milhões de empresas com o nome sujo, ou seja, mais de 1 milhão de negócios entraram para a lista da inadimplência em 12 meses.

Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, o dado mais revelador não é apenas o número recorde de empresas negativadas, mas o fato de o volume financeiro das dívidas continuar crescendo, sinal de que reduzir o passivo já acumulado tem sido mais difícil do que simplesmente evitar uma nova pendência.

Veja também:

Vender bem não é o mesmo que lucrar

Para o advogado tributarista Bruno Medeiros Durão, especialista em Direito Bancário e fundador da DAP Advocacia, julho deveria ser tratado pelo comerciante como um mês de revisão financeira, não apenas como uma data comemorativa. “Muitos comerciantes estão vendendo para pagar juros, impostos atrasados e parcelas renegociadas. O problema é que, quando o empresário mistura dívida bancária, tributo em atraso e falta de controle do fluxo de caixa, ele perde a noção do que é faturamento e do que é lucro real”, afirma Durão.

O sinal de alerta também vem do varejo como um todo. Segundo o IBGE, o volume de vendas do comércio varejista recuou 1,5% em abril de 2026 frente a março, na série com ajuste sazonal, uma pausa no fôlego que o setor vinha tentando recuperar no início do ano. A conta fica ainda mais apertada por causa do custo do crédito: com a Selic projetada para ficar perto de 13% ao fim de 2026, o dinheiro segue caro e mais seletivo, dificultando justamente a recomposição de capital de giro das micro e pequenas empresas. “Uma data comemorativa pode melhorar o caixa por alguns dias, mas não resolve uma empresa desorganizada. O comerciante precisa separar dívida para crescimento de dívida para sobrevivência. Quando o empréstimo vira rotina para pagar despesa básica, o caixa já acendeu o sinal vermelho”, diz Durão.

Antes de renegociar, faça as contas

Segundo o especialista, o pequeno empresário precisa olhar com atenção para contratos bancários, taxas de capital de giro, antecipação de recebíveis, renegociações tributárias e parcelamentos fiscais, sempre calculando o custo total da operação antes de fechar negócio. “O comerciante não pode esperar a cobrança chegar para descobrir que a dívida ficou impagável. Antes de tomar novo empréstimo, antecipar cartão ou parcelar imposto, é preciso saber qual é o custo total daquela operação. Às vezes, a empresa vende bem, mas trabalha para pagar banco, multa fiscal e juros acumulados”, afirma.

O alerta vale sobretudo para negócios que dependem de sazonalidade, lojas de roupas, calçados, acessórios e presentes, papelarias, mercados, restaurantes, bares, salões de beleza e comércios familiares. Datas como Dia das Mães, Dia dos Namorados, férias escolares, Dia dos Pais, Black Friday e Natal turbinam o faturamento, mas também podem esconder problemas estruturais — especialmente num momento em que o setor de serviços responde por mais da metade das empresas negativadas e o comércio já soma cerca de um terço dos casos, segundo o recorte por atividade da própria Serasa Experian.


5 erros que travam o caixa do pequeno negócio

Levantados por Bruno Medeiros Durão, especialista em Direito Bancário

– Tratar empréstimo como faturamento, dinheiro emprestado não é receita, é dívida com prazo para voltar.
– Olhar só o valor da parcela, e não o custo total da operação, com juros e taxas embutidos.
– Misturar contas pessoais e da empresa, o erro clássico que impede enxergar o lucro real do negócio.
– Formar preço sem considerar imposto e inadimplência, a margem que parece boa no papel pode não existir na prática.
– Renegociar dívida sem comparar o custo final, trocar uma dívida cara por outra ainda mais cara é um erro comum sob pressão.

Criado pela Lei nº 2.048, de 1953, o Dia do Comerciante é celebrado em 16 de julho em referência ao nascimento de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cayru, considerado o patrono do comércio brasileiro. Para Durão, a data também deve funcionar como um lembrete sobre a saúde financeira dos pequenos negócios. “O comerciante é uma peça central da economia brasileira. Ele gera emprego, movimenta bairros, paga impostos e sustenta famílias. Mas precisa de organização para não entrar no segundo semestre acumulando dívida bancária, tributo atrasado e crédito cada vez mais caro”, conclui.

Compartilhe:

Posts Relacionados